A inteligência artificial está mudando o jogo para os fabricantes de memória, exigindo investimentos bilionários para suprir a demanda crescente por chips DRAM e NAND.
A corrida pela inteligência artificial (IA) está impactando diretamente o mercado de hardware, especialmente os fabricantes de memória. Empresas como Adata, Apacer e TeamGroup foram forçadas a levantar mais de R$ 4,4 bilhões em crédito, por meio de títulos, empréstimos e ofertas de ações, para garantir o suprimento de chips essenciais.
Essa estratégia visa assegurar estoques de chips DRAM e NAND antes que os preços, já em alta vertiginosa, disparem ainda mais. A falta de fabricação própria desses componentes por parte dessas empresas as torna vulneráveis às flutuações do mercado, diferentemente de gigantes como a Samsung, que produzem os chips do zero.
O boom da IA elevou os preços de DRAM e memórias flash NAND a níveis recordes, com altas de 95% e 60%, respectivamente. Essa escalada de custos, aliada à priorização da produção de memórias HBM (High Bandwidth Memory) para data centers e servidores de IA pelas grandes fabricantes, deixa as linhas de produção voltadas para o consumidor final operando no limite, conforme informações divulgadas pelo Commercial Times.
Demanda por IA impulsiona preços de memórias DRAM e NAND
A crescente demanda por soluções de IA e computação em nuvem tem levado grandes players do mercado de semicondutores, como Samsung, SK Hynix e Micron, a redirecionarem suas linhas de produção. O foco agora são as memórias HBM e DRAM para servidores, componentes cruciais para infraestruturas de IA que, além de essenciais, oferecem margens de lucro significativamente maiores.
Enquanto isso, empresas como Adata e TeamGroup, que compram chips prontos para montar seus produtos, como kits de memória DDR5 e SSDs NVMe, enfrentam um cenário de escassez. Sem o poder de barganha para competir diretamente com as gigantes de IA pela aquisição de insumos, a compra agressiva de componentes tornou-se a única alternativa para evitar o desabastecimento e garantir a continuidade de suas operações.
A consequência direta dessa reorientação de produção é o aumento expressivo nos preços. A Adata, por exemplo, viu seus custos de matéria-prima inflarem a ponto de precisar garantir quase US$ 380 milhões (R$ 1,9 bilhão) em empréstimos bancários para sustentar suas compras. TeamGroup e Apacer seguiram um caminho semelhante para reforçar suas reservas de componentes.
Faturamento recorde não impede endividamento estratégico
Curiosamente, a busca por crédito não sinaliza uma crise financeira para essas empresas. Pelo contrário, o setor de memória para o consumidor final tem experimentado um faturamento recorde. O Commercial Times reportou que a Adata encerrou o primeiro trimestre de 2026 com um faturamento de US$ 826,5 milhões (R$ 4,1 bilhões), mais que o dobro do ano anterior. Outras marcas tradicionais, como Transcend e Innodisk, registraram em apenas quatro meses deste ano um faturamento superior ao de todo o ano passado.
Apesar dos resultados financeiros positivos, o custo para adquirir matéria-prima disparou de tal forma que o fluxo de caixa gerado não foi suficiente para cobrir as necessidades de estoque. A estratégia de “queimar caixa” para estocar componentes, segundo o TechSpot, tornou-se uma medida de sobrevivência a longo prazo.
A expectativa é que novas fábricas, capazes de aliviar a escassez e reequilibrar o fornecimento de chips DRAM e NAND, só comecem a operar a partir de 2027. Até lá, o consumidor final continuará sentindo no bolso os efeitos do aquecimento do mercado impulsionado pela IA.
Preços de DRAM e NAND sobem drasticamente
O direcionamento da produção para memórias HBM impactou diretamente as linhas de montagem voltadas para o consumidor. Os preços da DRAM já saltaram entre 90% e 95% em comparação com o trimestre anterior. Para o segundo trimestre, a previsão é de uma nova escalada de até 63%.
As memórias flash NAND, componentes essenciais para os SSDs, acompanharam essa tendência de alta. Elas registraram um aumento acumulado de quase 60% nos primeiros três meses do ano, refletindo a pressão do mercado e a busca por suprimentos.
Estratégia de estoque: uma aposta no futuro
A necessidade de contrair dívidas para estocar componentes é vista como uma estratégia de sobrevivência e antecipação. Com a previsão de que a normalização do fornecimento de chips DRAM e NAND só ocorra a partir de 2027, as empresas buscam garantir sua capacidade de produção e atender à demanda futura.
Essa movimentação financeira, embora represente um endividamento significativo, é encarada como um investimento necessário para manter a competitividade e evitar a perda de mercado em um cenário dominado pela IA. A expectativa é que, com o tempo e a estabilização do mercado, esses investimentos se justifiquem.