A nova onda de demissões na China: o paradoxo da IA
Um novo e intrigante roteiro de reestruturação corporativa tem marcado o primeiro semestre de 2026 na China. Funcionários são instruídos a mapear e registrar todos os seus fluxos de trabalho em plataformas de inteligência artificial. Pouco tempo depois, esses mesmos profissionais acabam sendo dispensados, dando lugar a agentes virtuais que agora executam suas antigas funções.
Essa estratégia, descrita pela Reuters como “demissões silenciosas”, parece ser a manobra encontrada pelas grandes companhias para atender à pressão governamental por maior produtividade, sem gerar alarde público ou grandes ondas de descontentamento. A abordagem contrasta com a de empresas ocidentais, que muitas vezes anunciam demissões em massa associadas à IA de forma mais ostensiva.
A legislação trabalhista chinesa impõe restrições a demissões em larga escala, exigindo aprovação prévia do governo para cortes que afetem mais de 10% da força de trabalho. Em resposta, muitas empresas asiáticas optam por congelar vagas e eliminar contratos de forma gradual, evitando assim os holofotes das autoridades. Conforme reportado pela Reuters, dados do Citibank indicam que cerca de 70 milhões de empregos na China, o equivalente a 9,6% do total, correm alto risco de serem substituídos por máquinas.
O ciclo vicioso: treinar para substituir
A inteligência artificial se tornou uma ferramenta quase obrigatória nas empresas chinesas que buscam acelerar a transformação tecnológica. Os setores mais afetados por essa reestruturação incluem marketing e atendimento ao cliente. Em algumas companhias, o desempenho dos funcionários é agora medido pelo consumo de “tokens”, a unidade que quantifica o uso de poder computacional nas interações com sistemas de IA.
Nesse cenário de pressão por eficiência, ocorre o que muitos chamam de “download do conhecimento humano para a máquina”. Ferramentas como o OpenClaw e o Wukong, plataforma da Alibaba, são alimentadas com os processos detalhados pelos próprios funcionários. Dias depois, essas plataformas assumem as tarefas, tornando obsoletas as funções que as ensinaram.
O impacto no mercado de trabalho chinês
O avanço agressivo da IA já começa a mostrar seus efeitos no mercado de trabalho. As projeções do Citibank são um indicativo preocupante: aproximadamente 70 milhões de empregos na China estão sob alto risco de substituição. Para os jovens profissionais, na faixa dos 20 anos, esse risco é ainda maior, saltando para 13,6%.
Enquanto a mídia estatal tenta acalmar a população com artigos que garantem que a IA “não roubará o sustento dos cidadãos”, nas redes sociais chinesas, a hashtag “ansiedade da IA” já acumula milhões de visualizações. O medo e a incerteza sobre o futuro do emprego diante do avanço da inteligência artificial são palpáveis entre os trabalhadores.
A estratégia das “demissões silenciosas”
Diferentemente de empresas ocidentais que anunciam demissões em massa, muitas companhias chinesas optam por uma abordagem mais sutil. A Reuters investigou que essa estratégia visa evitar a atenção governamental e a repercussão negativa. A ideia é implementar a automação gradualmente, sem causar pânico.
A legislação trabalhista chinesa, que dificulta demissões repentinas e em grande escala, força essa estratégia. Em pelo menos três casos recentes, tribunais decidiram contra empregadores que tentaram substituir equipes inteiras por sistemas de IA sem o devido processo. Assim, os cortes ocorrem “a conta-gotas”, focando inicialmente em departamentos como marketing e atendimento ao cliente.