O iQue Player: A ousada estratégia da Nintendo para conquistar a China
Relembrar é viver, e aprender algo novo também. Desta vez, aos desavisados, conheçam o iQue Player, o primeiro console oficial da Nintendo lançado na China. Ele foi o resultado de uma colaboração entre a Nintendo e o engenheiro taiwanês-americano Wei Yen, no início dos anos 2000.
O dispositivo surgiu como uma tentativa de entrar no mercado chinês em um período em que o governo mantinha uma proibição geral a quase todos os videogames. Executivos e advogados da Nintendo identificaram uma brecha: a legislação não especificava o que seria a definição de um console, o que influenciou diretamente o design do produto.
O preço do iQue Player no lançamento equivalia a US$ 72, cerca de R$ 364,22 em conversão direta. Hoje, uma unidade em estado impecável na caixa já foi vendida por US$ 1.500, o equivalente a R$ 7.587,98. Conforme informação divulgada por fontes como o YouTube (@Rerez) e BGR, esta é a história por trás de um console que se tornou um tesouro para colecionadores.
Um Nintendo 64 que cabe na palma da mão
Diferentemente dos consoles e portáteis tradicionalmente associados à Nintendo, o iQue Player funcionava como um dispositivo plug-and-play. Ele concentrava todo o hardware de um Nintendo 64 dentro do próprio controle, com até a fonte de alimentação acomodada internamente no aparelho.
A identidade visual do controle trazia os botões A e B nas cores azul e verde, o botão Start em vermelho e os botões direcionais C em amarelo. Fora essa paleta de cores característica, nada no design externo denunciava que se tratava de um console da Nintendo.
Por ser essencialmente um controle, o funcionamento exigia conexão direta à TV. O resultado era um híbrido bizarro entre um controle genérico trambolhudo e o que seria, futuramente, conhecido como o The Duke do primeiro Xbox da Microsoft. Essa é uma coincidência única, pois é impossível que ambos os periféricos tenham qualquer ligação.
A aposta jurídica e de engenharia rendeu resultados moderados
A aposta jurídica e de engenharia rendeu resultados moderados. O iQue Player não alcançou sucesso comercial expressivo, mas abriu caminho para que a Nintendo lançasse posteriormente o Game Boy Advance e o Nintendo DS na China sob a marca iQue.
Antes do lançamento oficial, a China funcionava como um território tomado por consoles e jogos piratas da Nintendo. A equipe da Nintendo e da iQue precisou desenvolver um sistema que blindasse o novo produto contra a inundação de títulos falsificados que dominava o mercado.
A estratégia contra a pirataria desenfreada
A solução veio no formato de distribuição dos jogos. Assim como o Nintendo 64 original, o iQue Player executava os games a partir de cartões de memória flash inseridos no dispositivo. Cada console saía de fábrica com uma cópia gratuita pré-instalada de Dr. Mario 64 e demos por tempo limitado de Super Mario 64, Star Fox 64, Wave Race 64 e The Legend of Zelda: Ocarina of Time.
Jogos adicionais podiam ser instalados nos cartuchos flash por meio de quiosques dedicados da iQue ou pelo site oficial da marca. O site, inclusive, continua no ar até hoje, demonstrando a longevidade da marca iQue.
A biblioteca enxuta de 14 títulos em chinês simplificado
Enquanto a biblioteca do Nintendo 64 reúne cerca de 400 jogos, o iQue Player recebeu apenas 14 títulos, todos localizados em chinês simplificado. O catálogo incluiu sucessos como Super Smash Bros. e Mario Kart 64, além de jogos mais obscuros como Custom Robo. Ficaram de fora títulos de peso como The Legend of Zelda: Majora’s Mask e Tony Hawk’s Pro Skater.
O modo multiplayer dependia de um acessório multitap proprietário e controles secundários chamados Swim controllers. Planos para adicionar funcionalidade online chegaram a ser discutidos, mas nunca foram implementados no produto final.
Por que o iQue Player se tornou item de colecionador
A raridade do iQue Player está diretamente ligada à sua escala de produção e distribuição geográfica restrita. O dispositivo foi vendido apenas na China, com um volume estimado entre 8.000 e 12.000 unidades comercializadas. O uso de cartões flash regraváveis em vez de cartuchos produzidos em massa adiciona outra camada de escassez a cada unidade sobrevivente.
Para efeito de comparação, o NES original com caixa e documentação vale mais de US$ 200, enquanto os consoles Nintendo 64 mais raros alcançam quase US$ 6.000. A vantagem técnica que conquistou os speedrunners também contribui para seu valor.
A vantagem técnica do iQue Player para speedrunners
O iQue Player é tecnicamente um Nintendo 64 reduzido a um único chip dentro do controle. No entanto, os designers conseguiram aprimorar o projeto original do N64 em aspectos que interessam diretamente à comunidade de speedrunning.
Por meio de otimizações de código e engenharia, o iQue Player avança rapidamente por blocos de texto e carrega áreas e fases mais rapidamente do que o Nintendo 64 convencional. A comunidade de speedrunning mantém regras rigorosas sobre quais dispositivos e emuladores são aceitos para validação de recordes.
A velocidade superior do hardware chinês justifica o interesse de competidores dispostos a pagar valores elevados pelo equipamento, tornando o iQue Player um objeto de desejo para entusiastas e jogadores de todo o mundo.