Brasil se destaca como centro de produção de jogos AAA, impulsionado por outsourcing e co-desenvolvimento, em um cenário global de demissões na indústria.
A indústria de games no Brasil vive um momento de maturidade e expansão, com estúdios nacionais ganhando destaque no desenvolvimento de produções de grande porte, conhecidas como AAA. Essa ascensão ocorre em um contexto de demissões globais no setor, onde o país se posiciona como um polo estratégico para o desenvolvimento e co-desenvolvimento de jogos.
Muitas desenvolvedoras brasileiras, em seus estágios iniciais, optam por focar em jogos mobile ou oferecer serviços de terceirização para estúdios estrangeiros. Essa prática, conhecida como outsourcing, co-development ou external development, permite a captação de recursos essenciais para o investimento em projetos próprios.
O presidente da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Digitais (Abragames), Rodrigo Terra, conversou com a imprensa durante a gamescom latam 2026, detalhando o crescimento do mercado brasileiro de games. Conforme informações divulgadas, o investimento total em conteúdo por parte dos desenvolvedores destinados à terceirização alcançou 35,5%, segundo pesquisa da Epyllion.
Crescimento do Outsourcing: Oportunidade ou Ameaça?
O aumento do outsourcing no Brasil tem atraído a atenção de grandes empresas de games internacionais. Iniciativas da Abragames e ApexBrasil têm sido fundamentais para essa maior visibilidade. Estúdios menores, que inicialmente buscam desenvolver suas próprias propriedades intelectuais (IPs), acabam entrando no setor de prestação de serviços para garantir estabilidade financeira.
Rodrigo Terra explica que essa exposição global permitiu que o mercado brasileiro fosse notado. O retorno financeiro obtido com serviços de external development e co-development tem sido crucial para a consolidação de estúdios como Kokku, Diorama e Pulga Studios. Terra ressalta que o mercado está bem dividido entre a preferência pelo outsourcing e o desenvolvimento de IPs originais.
A gamescom latam 2026 serviu como prova da atenção do mercado exterior para os jogos e estúdios brasileiros. Compradores e players globais, como a Nintendo, demonstraram interesse não apenas em contratar serviços, mas também em publicar jogos desenvolvidos no Brasil, evidenciando um potencial além do B2B.
Brasil: Custo-Benefício em vez de Mão de Obra Barata
Apesar das preocupações históricas sobre a exploração de mão de obra barata em mercados emergentes, o Brasil tem se destacado por seu custo-benefício. Terra aponta que o país atingiu um nível de qualidade superior a outros mercados, oferecendo um trabalho de responsabilidade e qualidade comparável ao de grandes produtoras internacionais.
A disparidade cambial entre o real e o dólar favorece a competitividade das empresas brasileiras sem a necessidade de reduzir preços. Além disso, a vantagem geográfica em termos de fuso horário facilita a colaboração com empresas da Europa e América do Norte. A maturidade das empresas brasileiras também reduz custos de coordenação, tornando o Brasil uma opção mais vantajosa que mercados como a China.
Desafios no Consumo de Jogos Nacionais pelo Público Brasileiro
Embora os estúdios brasileiros conquistem empresas estrangeiras, a resistência do público local em consumir jogos nacionais ainda é um desafio. Terra atribui isso à recente história da indústria brasileira de games, que historicamente consome conteúdo vindo de fora. A falta de um mercado consolidado nos anos 2000, apesar de pioneiros como Renato Degiovani nos anos 80, contribui para essa percepção.
O presidente da Abragames acredita que há um grande desafio em fazer com que os jogadores brasileiros reconheçam o potencial e o valor dos jogos nacionais. O cenário global, com jogos AAA cada vez mais caros e o foco em produções de menor escopo, abre espaço para os jogos brasileiros, que trazem originalidade, frescor e novas histórias.
O Futuro dos Jogos Brasileiros no Cenário Global
Mercados como Polônia, Coreia do Sul e China já estabeleceram uma posição privilegiada no desenvolvimento de grandes produções. Rodrigo Terra estima que o mercado brasileiro de jogos alcançará um prestígio global semelhante em menos de uma década, com potencial para criar títulos no nível de um novo Hollow Knight ou Clair Obscur.
O Brasil tem capacidade de competir no campo aberto por produções indie e AAA. Produções como o Zelda-like metroidvania Pipistrello and the Cursed Yoyo (Pocket Trap), o frenético Mullet Madjack (Hammer95 e Epopeia Games) e AILA (Pulsatrix Studios) demonstram a alta qualidade técnica e criativa dos estúdios brasileiros, mesmo para padrões globais.